Resenha Literária - "A Planta de Ferro" (1936) - George Orwell

"Hum, isso me parece familiar!"

Foram as primeiras palavras expressas no meu pensamento quando comecei a ler "A Planta de Ferro", de George Orwell, livro cuja capa reproduzo abaixo a imagem.


Daí descobri que, ao depender da editora, esta obra também pode assumir o título de "A Flor da Inglaterra". A partir disto, entendi melhor o ocorrido e mesmo assim, topei cumprir a missão de reler este volume, desta feita da Editora Principis, até mesmo para poder recompor uma resenha. Acredito porém, que as impressões ficarão similares, mas apenas farei alguma comparação ao terminar este texto aqui.

O título em inglês do livro é "Keep The Aspidistra Flying" e foi publicado originalmente em 1936. Apesar de pouco citada, a planta aspidistra toma um papel central no livro, especialmente no seu desfecho. 


A propósito, o título de planta de ferro vem bem a calhar, não apenas por uma característica intrínseca da planta (a resistência), mas também, podemos assim afirmar, como uma espécie de uma disputa texto x subtexto do protagonista, Gordon Comstock. Como ele vive em uma Inglaterra em período entreguerras, o contexto histórico por si só requer em sua conduta uma rudeza evidente. Combinado a isso, ele próprio batalha durante a trama com o dilema de ter que correr atrás de seu sustento, entremeando as atividades literalmente entre páginas e páginas de obras muitas vezes indesejadas e interlocutores também, marginalizando uma vocação "escondida", de escritor iniciante. 

Para ele, o dinheiro é o principal fator intimidante, e este conflito é evidenciado também em relação ao seu relacionamento com Rosemary e seu amigo Ravelston. Além da constante rabugice apresentada a ambos, determinadas decisões são refreadas devido à falta do papel-moeda. Com isso, desacredita da autenticidade quanto a um possível sentimento autêntico presente nas relações humanas, dificultando a proximidade destes dois outros personagens, quanto a um nobre sentido de auxiliá-lo.


Para Comstock de fato, a única oportunidade de manifestar sua insatisfação latente com a organização social vigente era a presença do rico e abastado Ravelston, pois nestes encontros e até mesmo em dado momento mais delicado da vida financeira de Comstock, pela necessidade de acolhida, existe a abertura de que cada um coloque seus pontos de vista em relação à sociedade vigente. Disso advém características distintas entre ambos: o protagonista (pobre), não se vê seduzido por exemplo, pela proposta do amigo (rico) de seguir determinadas teorias de Karl Marx, até mesmo pela latente contradição do abismo social existente entre ambos. 

Ravelston, como dito, é o burguês da história, regado à boêmia, facilitado por suas posses e contatos. Mesmo teorizando a respeito da revolução do proletariado, na realidade tem uma repulsa em relação a ele. Até surpreenderia esta proximidade com um elemento totalmente antagônico, mas isso se explica pelo fato do autor, George Orwell, ter como amigo na vida real um editor rico chamado Richard Rees. 


O livro mantém proximidade em relação a este descritivo de diferenças sociais, conflitos e incertezas, com "A Revolução dos Bichos" por exemplo. Mas ali recorre-se a uma analogia em primeiro lugar, classificando animais e outorgando a eles papéis humanos, algo é claro fantasioso de certa maneira. Ademais, não concentra os defeitos e incorreções em um personagem central, demonstrando-os pela própria presença de privilegiados x oprimidos em diferentes animais e sua volátil obediência a propósitos conforme a conveniência para si próprios aparece. 


Isto posto, incentivo a todos para que leiam "A Planta de Ferro" ou "A Flor da Inglaterra", conforme a editora, não apenas pela história significativa e que nos oferece bons pontos de reflexão em relação a incertezas, conflitos, capacidade de termos resiliência e mudança, mas também para complementar a lista de leitura de Orwell com títulos diferentes dos mais conhecidos (no caso, "1984" e "A Revolução dos Bichos"). 

Boa semana e até a próxima postagem, pessoal!

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